sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Manual de Amor ao Artista


Para se amar um artista tem que saber ser livre.
Não falo do amor livre, aquele desvairado em que nada importa, em que corpos e bocas diversas fazem parte de tudo sem mesmo fazer parte de nada. Não é desse que falo. Absolutamente também não falo de amor livre desses que quase já não há amor. Aquele que as pessoas fingem se amar, fingem se importar mas na verdade não. Olham para o lado sempre a procura de algo melhor e sofrem por dentro por não saber o que procurar. Não é desse amor que falo.
Na verdade nem quero dizer nada sobre amor livre. Não é o amor que deve ser livre.
Nós temos que ser livres.
E ser livre não significa ser rebelde, adverso, descompromissado ou desinteressado. Ser livre não significa fazer o que acha que deveria para parecer independente. Ser livre não significa agir inconsequentemente sem se preocupar com o que o outro sente, com o que o outro pensa, com que o outro precisa. Ser livre não é estar ausente.
Aliás, acho que esse é um dos maiores desafios da liberdade: estar presente.
Porque pra você ser livre você tem que entender o mundo, a diversidade dos sentimentos, a diversidade de pessoas, a diversidade de idéias e opiniões. Você tem que fazer suas escolhas sem ferir as alheias, sem prender, sem forçar, sem dominar.
Ser livre não é estar no topo, é estar. Apenas.
E pra se amar de verdade um artista é preciso entender que nada é o que parece, que as coisas mudam e quem nem sempre dão certo. É preciso entender que sonhos podem virar realidade - nem que seja somente na ponta do lápis - mas que nem sempre esses sonhos são reais. Podem ser só sonhos do artista. É preciso entender que as horas passam, os dias passam, os anos passam e ele vai estar sempre lá, apaixonado pelo trabalho (que vai ser o único amante verdadeiro se sua vida).
Por esse motivo o artista ama seu trabalho: porque é livre.
Para se amar um artista é preciso olhar com atenção e se deixar ser olhado. É preciso estar só e deixar só - sem realmente estar em ambos os momentos. É preciso criar: rotinas dentro do caos, novas histórias dentro da história, motivos pra amar, espaços pra viver.
É estar lá e saber que o artista também vai estar. É sentir e saber que o artista também vai sentir. É amar e saber que o artista também vai amar. Sem necessariamente ele ter que provar isso a todo momento.
As provas de amor de um artista vêm através de sua arte. O quanto mais ele ama, mais ele se sente criador.
Não que o artista não crie também quando está triste ou desamado - mas aí é quando o amor próprio fala.
Ele às vezes vai parecer distante, às vezes vai parecer frio, às vezes vai parecer triste - e não vai ser por sua causa. O artista sofre, sozinho, de sua própria criação.
Ele às vezes vai parecer animado, às vezes vai parecer eufórico, às vezes vai parecer feliz. Aproveite sempre esses momentos com ele.
Mas não quero dizer com tudo isso que amar um artista é uma entrega solitária. Ele também vai te amar, e te agradar, e te respeitar: se você for livre.
Livre pra amar seu jeito desconexo. Livre pra entender suas ausências. Livre pra admirar suas criações. Livre pra controlar o ciúmes. Livre pra se ausentar sem jogos. Livre pra viver sem amarras. Livre pra amar sem medo. Livre sem medo de ser amado da forma que ele souber amar.
Para se amar um artista tem que se entender que o amor é livre, sem necessariamente ser o amor livre desvairado ou o amor livre desinteressado. O amor é livre pois é pessoal, individual e intransferível. É variável dentro de uma mesma forma e simples o suficiente para assustar.
Para se amar um artista tem que saber que não importa o que acontecer, se você for digno de receber amor - qualquer tipo de amor - ele será seu. Inevitávelmente.
Pode parecer complicado, muitas regras, muitos problemas... mas não, não é assim.
A grande questão que você precisa saber responder para saber se pode ou não amar um artista é: Você sabe ser livre?
Se a resposta for não, eu sinto muito.
Se a resposta for sim, então apenas te informo que, se você for realmente livre, o artista te amará antes que você o ame - e não há como não amar um artista apaixonado.

**autor - desconhecido

terça-feira, 8 de dezembro de 2009




Desenhador de sonhos...

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O meu lápis dança por entre os dedos, indeciso… não sei como começar, as ideias surgem todas ao mesmo tempo, são imparáveis. No entanto posso escolher apenas uma para começar a sonhar… e deixar-me levar pela sugestão. De vez em quando, durante a noite, em sonhos, vejo uma janela alta, aberta e decorada com cortinados brancos de cetim, a claridade invade a sala e reflecte no chão bege, espelhado, há plantas com grandes folhas verdes que preenchem o espaço vazio, movem-se com a brisa, parecem respirar. Surge como um flash, durante muito pouco tempo, mas o suficiente para perceber que ali sim está o auge da tranquilidade e da paz. O sono surge sempre da mesma forma, o flash e em seguida uma pessoa que caminha encandeada pela luz do sol que penetra por entre as copas das árvores, olha para cima, cerra os olhos e sorri como que o cumprimentasse, ouve-se o cantar dos pássaros e vê-se borboletas que posam nas pétalas das rosas que rodeiam o prédio onde essa mesma pessoa vai entrar. O sonho vai-se completando ao longo das noites e sempre acrescentando mais e mais imagens, histórias, ideias. A pessoa não é rica nem pobre, tem um emprego e parece feliz. O tempo é escasso mas é bem utilizado. Então geralmente penso no que ele poderá significar. Ao longo de várias noites o personagem foi-se desmascarando, este sai e entra em sua casa alegre e tranquilo e por vezes dirige-se a uma sala vazia que tem as paredes desenhadas, são rosas, rosas que pertencem ao arco-íris, o chão é espelho e o tecto um céu imenso. A sala aumente e revela-se num mundo de fantasia. A personagem faz sempre o mesmo, olha em seu redor, fecha os olhos e anda até ao centro do espaço e… tudo se apaga. O fascínio invade-lhe o coração! Por vezes quando acordo, tento voltar a fechar os olhos e começar a imaginar, mas não funciona, voltaria a perder aquela história sem fim. Passado algum tempo e sonho modifica-se e os acontecimentos são contados por alguém que parece conhecer a personagem misteriosa. Ele diz: – Ele está sempre a sorrir, não pára… E um tom escarlate percorre a tela numa espiral que aumenta. – Viram? Agora tentem faze-lo, mas de um forma só vossa, juntem o que viram com as vossas ideias pessoais. Ouve-se apenas vozes, num ecrã em branco: – Gostas? – “ Tá muita “ giro! Ao longo do tempo, surgem salpicos de tinta e água por entre o branco, imagens revelam-se, são crianças, cadeiras, janelas, cores… No sonho nunca há noite ou chuva, não há vento mas apenas uma brisa que agita as gotículas de orvalho dos lírios das vivendas ao lado do prédio. E segue-se a sequencia: o flash, a personagem e a linha que percorre a tela em espiral e que, com a mesma linha, mergulha para revelar uma curva que se vai voltar a erguer. – Ah! Não é para fazer isso _ ouve-se uma voz de uma rapariga com sardas em toda a face e cabelo liso que cai para os ombros. Vê-se um rapaz que desenha num caderno escolar, bonecos inventados, animais, sorrisos entre outros temas. – “Ó professoreeee”, ele não está a fazer o que mandou! Mas este parecia não estar a ouvir, olhava fixamente para os desenhos do rapazito. Não nada, apenas pestanejou duas vezes enquanto os observava. A personagem misteriosa que era professor, perguntou: – Quem são? – Não sei – responde o rapaz – não os conheço, apenas sei que têm cabelos escuros e olhos verdes e que têm um…um…um gato que eu vou desenhar. Então o lápis desliza sobre o papel de uma forma ágil e discreta. A partir desse momento a expressão do professor deixa de ser alegre e divertida, para passar a ser séria e pensativa. Quando o sonho surge novamente, começa de forma diferente como uma história. Ele entra em casa e observa vários cadernos, pastas e dossiers cobertos de pó e humidade que se acumulara durante anos a fio, desfolhe ia alguns e retira algumas folhas, põe na sua mesa-de-cabeceira e dorme até à manhã seguinte. Durante o decorrer do sonho, aquele alguém diz frases soltas: – Repara como ele o faz, parecem memórias do teu passado… O professor pede ao seu aluno: – Faz-me um gato. Quando o fez, o professor pegou numa das folhas que tinha tirado dos cadernos e comparou, era igual. – Que idade tens? – Perguntou ele. – 10 anos respondeu o rapaz. Foi então que o professor leu na mesma folha, “Bem-vindo ao 5º ano”! – Em que ano estás? – ….Mmmm 5º. Derrepente a voz surge novamente: – Tu és um visionário! E acordo sem mais nem menos. No dia seguinte a história reaparece mas completamente diferente, ouvem-se violinos e vê-se o tom escarlate na tela, a espiral, alinha que mergulha e a simplicidade das curvas que eram feitas com tanto entusiasmo, parecem formar corações invertidos que eram seguidos de um traço rude e grosseiro que atinge o final da superfície, no fim são feitos espinhos discretos e sem pormenor para revelar uma flor, uma flor como qualquer outra como aquelas que rodeavam o prédio ou as que estavam desenhadas na sala que aumentava. O som dos violinos acentuasse e surgem os cortinados brancos que dançam ao sabor da brisa que os percorria, depois o gato a ser desenhado e finalmente um cerrar de olhos incomodados pela claridade inigualável do sol naquele sonho. A verdade é que nunca mais o tive, pensei inúmeras vezes e cheguei à conclusão que me pareceu mais adequada. O rapaz e o professor são a mesma pessoa, eu, mas em épocas diferentes, passado e futuro. As rosas significam o belo mas os seus espinhos, obstáculos para a vida e penso que os cortinados, significam a conquista da felicidade, no entanto existe ainda o cerrar de olhos, presumo que poderia concluir algo se o capitulo continua-se, o cerrar de olhos é o meio entre o abrir e fechar, se a personagem os fecha-se é certo que concluiria que aquilo era uma pista para explicar que toda aquela história não passaria de um vulgar sonho, um conto de fadas criado por mim, mas se o professor os abrisse… Mas não é importante, pelo menos enquanto vivi este sonho, deixei-me preencher de esperança, coragem e alegria… e é disto que deve ser feito a nossa vida.